
Michael Gira, poeta e maestro dos Swans
Na última edição da Wire vem, para lá de uma pequena entrevista com os fabulosos Animal Collective [ entrevista para breve na Puta ], ou ainda de um pedaço de texto-manifesto apaixonado da Lydia Lunch, um excelente artigo com o Michael Gira, líder dos defuntos Swans. Trabalhando agora com a sua nova banda, os Angels of Light, editados no seu próprio selo, a Young God Records, Gira continua intenso e poético como sempre, mas dentro de mim, sagrada mesmo, é a música que produziu com os Swans.
Numa carreira bastante heterogénea, os curiosos que nunca os ouviram terão que ter muito cuidado por onde começar, quer por razões estilísticas, quer por razões de integridade emocional. Os Swans foram das poucas bandas realmente perigosas da história do rock. Perigosos como, por exemplo, os Joy Division o foram.
Lembro-me de há alguns anos estar uma noite na casa de um antigo amigo, às tantas da manhã com uma directa em cima a ver k7s antigas dele com gravações do 120 Minutes, a bíblia televisiva do indie/avant-garde nos anos 90, extinto programa da MTV. Lembro-me do riso sólido do meu amigo, de olhos abertos, quando se disse que iria rodar o "novo single dos Swans", "Love of Life". Fiquei com a curiosidade espicaçada. Lembro-me de não me lembrar se tinha respirado nos minutos que se seguiram. Sei que nunca tinha ouvido ou visto nada assim. As imagens seguiam-se como flashes, padrões psicadélicos entrecortados com caras e símbolos numa velocidade excessiva, enquanto um som massivo, impressionantemente imponente, demolidor, rodeava uma voz messiânica, possessa, que entoava frases repetidamente, mudando-as constantemente de forma quasi-subliminar, hipnótica, marcial:
“For The Love Of Life
For The Love Of Life
In The Light Of Life
In The Love Of Light
And The Strong Survive
For The Love Of Life
And The Strong Will Rise
In The Endless Light
For The Blood Of Life
For The Love Of Life
In The Bloodless Light
For The Love Of Light
In The Blood Is Light
In The Light Is Life
For The Love Of Life
For The Love Of Life
In The Endless Light
In The Blood Of Life
Now The Strong Will Rise
For The Love Of Light
In The Bloodless Light
Now The Strong Survive
For The Love Of Life
For The Blood Of Life
And The Heavens Come
For The Strongest Ones
In A Universe
Made Of Blood And Love
In The Blood Is Light
In The Light Is Life
For The Love Of Life
For The Love Of Life”
Pareceu-me a melhor coisa que já tinha ouvido em toda a minha vida, que não o era nem é, claro. Mas cada melhor coisa do mundo inteiro tem essa capacidade de o parecer na altura em que o é em nós. Não me recordo se horas a seguir, se no dia seguinte, fui à Feira da Ladra com um outro amigo procurar discos deles. Comprei uma edição numa elegante caixa de cartão que inclui os álbuns Cop, Greed, Holy Money e ainda o EP Young God [ é exactamente daí que os suíços tiraram o nome, sim ].
O que comprei foi exactamente dois CD’s com os álbuns de estúdio da era mais perigosa dos Swans, todos eles, ali, à minha espera. Os Swans, sempre minimais, trataram durante toda a sua carreira de alguns – todos? - os grandes temas líricos. Vocês sabem do que eu estou a falar: Alma/Corpo, Amor/Ódio, Prazer/Dor, Posse/Perda, Mestre/Súbdito, Sangue, Paixão, Estrelas, Escravidão. Tudo isto bem separado, ou muito bem misturado ao ponto da confusão sensorial. In extremis, não é, por vezes, o ódio amor? A dor prazer?
Ora, estes trabalhos da primeira fase dos Swans, compreendida estilisticamente entre 82 e 86, é, que me lembre, a música mais deprimente, brutal e dolorosa que conheço. Cada pulsar da bateria um duro pontapé no estômago, e a batida não pára. Cada nota na guitarra uma violenta facada, e o sangue continua a sair. Monolítica, primal, gutural, é poluição e dor, exorcizadas a partir da recepção das mesmas em excesso. Fisicamente esgotante, punitiva, o poder desta música é multiplicado pela tempestade em tumulto que é a voz de Gira, simultaneamente espectral e gutural. Deixo a letra, na íntegra, um dos mais magníficos hinos desta época da banda, “A Hanging”, de Holy Money:
“Dear God In Heaven
I Feel For You
Dear God In Heaven
I Feel For You
I'll Hang For You
I Feel For You
I'll Hang For You
I Feel For You
I'll Hang Myself
I Feel Myself In You
I'll Hang For You
I Love Myself In You
Dear God In Heaven
I Feel For You
Dear God In Heaven
I Feel For You
I Won't Do Anything
I Won't Do Anything
I'll Remember Everything
I'll Remember Everything
Dear Dear God In Heaven
I Feel Myself In You
Dear God In Heaven
I'll Hang For You”
Gira mártir-corpo consciente, súbdito, em êxtase de desprendimento total, amor, masturbação, purificação, morte, enquanto que Jarboe - na altura recente membro da banda e uma das mulheres da vida de Gira - faz ressoar o seu canto fúnebre.
Jarboe, por sua vez, é um caso muito particular na relação que cria com alguns ouvintes, sei-o porque já conheci quem partilhasse da mesma sensação. Trata-se de uma relação quase maternal, sagrada, apaziguadora, mas ao mesmo tempo sexual, sem que ela emane realmente algo libidinoso, como na Pietà. Para tentarem perceber isto podem ouvir a mágica “Blackmail”, também de Holy Money. Ressalve-se, de qualquer das maneiras, que Jarboe andou ali num limbo estético muito duvidoso (aquelas tranças finas descoloradas mid-80’s não lembram a ninguém, nem o recente look de Santa Maria do S&M), portanto não se ponham aí com ideias.
No ano seguinte, com Jarboe bem sedimentada criativamente dentro do grupo, começou uma era não menos intensa, mas a “perigosidade” de que falava esmoreceu um pouco. Vieram até a aparecer, inclsuive, as guitarras acústicas, e, pior ainda, Gira parece que ficou mesmo apaixonado [eek]. Um ciclo novo começava, mas disso falarei – ou não – noutra altura. Os Swans viriam ainda a produzir a sua obra-prima, o canto de cisne consiente Soundtracks For The Blind e um duplo ao vivo, dos meus álbuns de sempre, o monumental Swans Are Dead.
Para quem quiser compreender melhor tudo isto, o site oficial da banda tem uma série de dados interessantes, todas as letras da banda, bem como uma fascinante entrevista que não consigo encontrar em que Gira falava da sua incrível vida na fuga que fez pela Europa e Norte de África, desde os seus 14 aos seus 16 anos, altura em que foi expulso - penso que - da Turquia, depois de preso, por tráfico intercontinental da drogas pesadas. Se a voltar encontrar farei um link na freira, já que é muito importante para compreender a pessoa de Michael Gira, e, consequentemente, obra dos Swans, bem como este abismal primeiro período da banda, que inclui, para lá dos registos referidos, o EP Filth e o álbum ao vivo, Body To Body, Job To Job.


















